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  • Suyenne Lemos

Aquilo que deixou de ser?

O que está por trás das Ruínas.


“Recordar é como tentar restaurar um edifício antigo com as pedras de suas ruínas. E as pedras tem memória”. Essa frase é uma das muitas belezas contidas no filme De Amor e Trevas. O filme é uma adaptação do livro de memórias escrito por Amos Oz, e é ambientando durante a guerra de Jerusalém.

A TALE OF LOVE AND DARKNESS | 2015 | EUA e Israel | Direção: Natalie Portman


Buscando pelo significado da palavra ruína, encontramos destruição, restos, destroços. As ruínas podem sim, ser resultado de um ato destrutivo. Quando pensamos em guerras, faz sentido associar isso a "cidades em ruínas".

Apesar de possuir esse sentido, acredito que também exista um lado mais leve. De registro do que já foi e não volta a ser, afinal "as pedras tem memória". Para mim, a beleza das ruínas reside nessa memória. São marcas, cicatrizes, o que fica. Aquilo que resiste, afinal.

Existem ruínas que são pontos turísticos, como as ruínas de Machu Picchu, no Perú, ou as pirâmides de Teotihuacan que podemos visitar no México. Elas nos dão, de alguma forma, um vislumbre de um tempo que não alcançamos, de atividades que apenas supomos, de uma outra vida que pode apenas ser minimamente imaginada, já que estamos sempre impregnados pelas nossas próprias vivências e pelo nosso próprio tempo.


Ruínas de Machu Picchu, no Perú.


Através desses vestígios arquitetônicos, podemos investigar as técnicas construtivas dessas civilizações antigas e o modo de vida dessas sociedades. Existe também um valor estético e nostálgico, como apresenta Huyssen (2014) -em seu texto A nostalgia das ruínas.


[…] o anseio nostálgico do passado também é sempre uma saudade de outro lugar. A nostalgia pode ser uma utopia às avessas. No desejo nostálgico, a temporalidade e a espacialidade estão necessariamente ligadas. A ruína arquitetônica é um exemplo da combinação indissolúvel de desejos espaciais e temporais que desencadeiam a nostalgia. No corpo da ruína, o passado está presente nos resíduos, mas ao mesmo tempo não está mais acessível, o que faz da ruína um desencadeante especialmente poderoso da nostalgia. (HUYSSEN, 2014, p.91).


Na arquitetura, são complexas as reflexões que podemos fazer em projetos de preservação e restauro. Que marcas daquele desgaste devemos manter? O que é de fato importante restaurar, e onde colocamos a marca do nosso tempo? O que é importante apenas preservar, sem restaurar? São diversas as linhas de pensamento, e muitas vezes conflitantes, quando falamos em intervenções em ruínas arquitetônicas. Acredito que hoje seja quase um consenso que as intervenções devem deixar claro para as pessoas o que é original, onde podemos vislumbrar as referências históricas da ruína, e o que é intervenção, principalmente quando o espaço deve cumprir uma outra função. Assim, fica claro através das técnicas construtivas e materiais empregados, o que pertence ao passado e o que pertence ao presente, naquela obra.


Podemos ver um exemplo desse tipo de intervenção no projeto da Pinacoteca de SP, no projeto de 1998, dos arquitetos Eduardo Colonelli, Paulo Mendes da Rocha, Weliton Ricoy Torres. "O prédio, construído na última década do século dezenove para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios nunca foi totalmente concluído. (...). O edifício passou a receber diversos tipos de ocupação e toda a sorte de absurdas agressões e abandono, desde a inclusão de piso intermediário numa ala inteira, para abrigar uma escola com milhares de alunos, até as transformações, inevitáveis, dos arredores, desengonçando sua implantação, quando deveriam manter-se cuidadosas com a sua arquitetura peculiar. O prédio em si também sofreu estragos, consequência das águas, do estado dos telhados, goteiras e entupimentos das prumadas de águas pluviais, principalmente."


Fotografia: Nelson Kon


No projeto, o aço foi o principal material construtivo adotado. Está presente nas passarelas, nos elevadores, nos parapeitos, nas novas escadas, nas estruturas dos novos pisos e coberturas, nas esquadrias e nos forros. Seu uso foi devido a sua melhor adequação às condições locais de execução, sua leveza (material e desenho) e por estabelecer um diálogo interessante e desejável com a construção original, entre o novo e o antigo.




Com as intervenções tecnológicas, também podemos, através de computação gráfica, conhecer a forma original de ruínas.Nestes GIFs feitos por NeoMam e Thisisrender para a Expedia, sete maravilhas arquitetônicas são reconstruídas em sua forma original, permitindo ver como os monumentos de outrora se tornaram as ruínas que conhecemos hoje.





Aqui na oficina da Elemento Fio, na construção dos anéis da linha Ruína, o que vem ruir é o padrão, é o comum. Partindo de uma aliança simples, as peças são modificadas, como se o tempo acelerasse e levasse a matéria para um momento outro. Elas sofrem interferência do fogo, e tem sua forma definida por esse elemento e pelas intervenções que acontecem, quase que ao acaso.


E assim, o que fica contém aquilo que já foi, mas assim como tudo que sofre uma grande intervenção, tem marcas que são únicas, indeléveis. O tempo não mais corrói.



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